quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Os quatro frascos da Vida

A vida se resume a quatro frascos.
Vamos aproveitá-la, porque já estamos no terceiro.

Resposta Anuncio de Emprego

Este anúncio foi publicado num famoso site de procura e oferta de trabalho nacional. Um jovem recém-licenciado na área leu-o e achou que devia responder à letra!

A Revista Visão de 16 de Julho publica um artigo sobre o jovem que deu esta resposta!

A XXXXXXXXXX está a aceitar candidaturas para estágio na área de Design

Requisitos Académicos: Finalista ou recém-licenciada(o) em Design

Competências pessoais:

Poder de comunicação, Iniciativa, Auto-motivação, Orientação para resultados, Capacidade de planeamento e organização, Criatividade.

Competências técnicas (Conhecimentos nos seguintes programas/linguagens):

® Adobe Photoshop,

® InDesign,

® Illustrator (FreeHand e Corel Draw) Flash,

® Dreamweaver,

® Premiere,

® AfterEffects,

® SoundBooth,

® SoundForge,

® AutoCad,

® 3D StudioMax

® HTML (basic),

® ActionScript 2.0 (basic),

® CSS,

® XML.

Remuneração: Estágio Remunerado

Duração: 6 meses, com possibilidade de integração na equipa

Portanto, e resumindo, esta empresa quer um recém-licenciado que saiba de origem 13 softwares e 4 linguagens de programação. Isto é o país em que vivemos.

Não me ficando atrás perante esta pérola, decidi responder no mesmo estilo.

Eis o que lhes respondi:

Boa noite,

Estou a entrar em contacto para responder ao anúncio colocado no site Carga de Trabalhos para a posição de estagiário em Design.

Chamo-me André Sousa, tenho 25 anos e sou um recém-licenciado em Design de Equipamento (Fac. Belas Artes de Lisboa).

Sou extremamente comunicativo, transbordo iniciativa e auto-motivação, estou constantemente orientado para os objectivos como uma bússola para o Norte (magnético), sou mais planeado e organizado que o Secretário de Estado de Planeamento e Organização e sou um diamante da criatividade como já devem ter percebido e como vão poder comprovar nas próximas linhas.

Quanto aos conhecimentos técnicos:

Sou um mestre em Adobe Photoshop.

Conheço o InDesign por dentro e por fora.

O Illustrator, Freehand, Corel e o Flash são os meus brinquedos do dia a dia, faço o que quiser com eles.

Nem me ponham a falar do Dreamweaver, até de olhos fechados...

Premiere... Até sonho com ele!

AfterEffects tem um lugar especial no meu coração.

Faço umas coisas bem maradas com o SoundBooth e o SoundForge.

Com o Autocad e o 3d Studio Max até vos faço duvidar dos vossos próprios olhos.

Html, Action Script 2.0, CSS e XML são as linguagens do meu mundo.

Mas sejamos francos, qualquer estudante de 1º ano sabe de cor e salteado qualquer um destes 13 softwares e 4 linguagens de programação...

Eu sou um recém finalista. E como tal tenho muito mais para oferecer:

Tenho conhecimentos de Cinema 4D, Maya, Blender, Sketch Up e Paint ao nível de guru.

Tenho conhecimentos mega-avançados de C+, C, C++, C+ ou -, Java, JavaScript, Ruby on Rails, Ruby on Skates, MySQL, YourSQL, Everyone'sSQL, Action Script 3.0, Drama Script 3.0, Comedy Strip 3.0 e Strip Tease 2.5, Ajax, Vanish Oxi Action, Oracle, Sonasol, XHTML, Batman e VisualBasic.

Conheço o Office todo de trás pra frente assim como a Microsoft WC.

Domino o Flex ao nível do Bill Gates e mexo no Final Cut Pro melhor que o Steven Spielberg.

Tenho ainda conhecimentos de grande amplitude em 4 softwares que estão a ser desenvolvidos por grandes marcas e também de 3 outros softwares que ainda não foram inventados.

Falo 17 línguas, 5 das quais já estão mortas e 6 dialectos de povos indígenas por descobrir.

Com estes conhecimentos todos estou super interessado num estágio porque acho que ainda tenho muito para aprender e experiência para ganhar. Espero que ao fim de 6 meses tenha estofo suficiente para poder fazer parte da vossa equipa e quem sabe liderá-la.

Fico ansiosamente à espera de uma resposta vossa.

Embora tenha uma oportunidade de emprego na NASA e outra no CERN espero mesmo poder fazer parte da vossa equipa.

Cumprimentos,

A. S.

PS: Com um anúncio desses, a pedir o que pedem a um recém-licenciado, é uma resposta destas que merecem. Peço desculpa se feri susceptibilidades mas não me consegui conter

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O tempo dos Surdos e dos Mudos

Luanda - Nasci num tempo em que já não havia nem colonos nem guerra colonial. Havia guerra entre nós, mas colonial já não. A minha infância foi povoada de relatos e vestígios de morte, a minha adolescência vivida entre o medo de ir à tropa e a esperança no fim da guerra. No meio de tudo isso ia à escola e ouvia histórias. O futuro era uma incógnita, por isso falava-se do passado. De um passado preenchido de coragem em busca da liberdade. E aos meus olhos, Agostinho Neto e os seus companheiros eram os heróis da vida real.

Enquanto ouvia as histórias, tentava colocar-me naquele tempo, imaginava-me no meio do Rangel ou do Sambizanga com uma catana na mão, nas reuniões clandestinas do movimento, nas fugas para o Congo, a vida no maquis, nas matas e nas lutas. Imaginava-me na escrita camuflada do Luandino, nas músicas do David Zé, e experimentava o medo, a revolta, a angústia, a raiva também, mas principalmente a coragem dos que construíram aquelas histórias. Sentia inveja por não ter vivido naquele tempo para poder ser um herói como eles foram, porque tinha a certeza que nunca mais iríamos viver tempos como aqueles, em que homens lutaram para ser livres.

A guerra colonial acabou sem que eu fizesse um único tiro. A nossa também terminou, e eu nem numa arma peguei. No meio disso nasceram outros heróis que um dia as crianças vão ouvir falar nas escolas e nas ruas. Mas hoje, quando penso na nossa sociedade não consigo libertar-me da sensação de estar amarrado dentro de mim. É verdade que posso ir à Benguela de carro, passar pelo Huambo e chegar até Malange, ainda assim me sinto preso dentro de mim. Todos os dias tenho de repetir para mim mesmo que sou livre, mas nem o som da minha própria voz parece o mesmo. Quando falo sobre isso com os meus amigos, com ex-colegas, com os meus companheiros da vida, todos concordam e se confessam aprisionados também, mas a seguir olham em volta e repetem o sussurro medroso da canção do Waldemar Bastos: «Xê menino, não fala política…», como se não fôssemos ainda livres. Afinal, somos ou não somos livres?

Vivemos com medo mas, se pensarmos bem, nem sabemos do que tememos realmente, e acabamos por ter medo de tudo, até dos nossos pensamentos, das nossas ideias mais brilhantes. Numa sociedade livre as pessoas não têm de se lembrar todos os dias que o são, numa sociedade livre a liberdade é uma condição imanente da própria humanidade, é como o respirar, faz parte de si, e os gestos, os actos, as atitudes dos seus membros surgem com naturalidade, exactamente como o respirar. Quando não respiramos morremos, quando não temos liberdade também.

Há dias, falando sobre isso com uma amiga, que por acaso está a fazer o curso para a magistratura judicial, ela disse que se sentia da mesma forma, mas que no nosso país «é preciso ter jogo de cintura», no fundo ela queria dizer que é preciso continuar a fingir que somos livres, porque assim pelo menos temos a certeza de que continuamos vivos, recebemos o salário ou um carro no serviço. Não cantamos, mas ao menos dançamos, mesmo sem gostar da música. O melhor é apenas tapar os ouvidos ou fingir que somos surdos.

Fiquei horrorizado. Escandalizado. Aliás, vivo escandalizado, principalmente quando penso que, se Agostinho Neto e os seus companheiros usassem o jogo de cintura, provavelmente não estaríamos ainda independentes, e ao invés de ouvirmos as histórias do Ngunga e do Pioneiro Ngangula, estaríamos a ler Os Lusíadas e a cantar Heróis do Mar, invés do Angola Avante da nossa infância. Se calhar, e ainda bem, Neto e os seus companheiros não sabiam dançar e preferiram lutar.

Mas a verdade é que no nosso país até a mera intenção de falar se tornou num acto «insensato» de coragem, pensar hoje é uma afronta, e por causa disso estamos a construir uma sociedade dos Prós e dos Contra, onde quem fala subverte o sistema e ameaça a estabilidade, como se das palavras viesse o mal que todos vêm, como se o silêncio fosse capaz de corrigir os erros que sabemos, como se o barulho do nosso grito mudo fosse capaz de abafar as frustrações visíveis em cada olhar calado.

O falar só assusta numa sociedade onde não há liberdade. Mais do que assustar, quando não há liberdade, o falar incomoda, e as pessoas vivem caladas, ou falam o que não pensam. Mas a maioria não fala, até aqueles que têm a obrigação histórica e moral de o fazer. Não falam, não porque têm medo de falar, mas porque têm medo de pensar e não querem correr o risco de falar. Silenciamos o pensamento e vivemos calados de boca aberta.
Quando vejo isso penso nos heróis do tempo do colono. Acredito que era exactamente assim que eles se sentiam. Prisioneiros de si. Basta lembrar de um poema, um único poema, A renúncia impossível, de Neto, e de todos os lamentos daqueles tempos, para perceber a tentativa corajosa daquela gente se libertar da prisão que era a sua vida, resumida a uma mera existência. Uns preferiram morrer, simplesmente porque é impossível renunciar a liberdade e continuar vivo.

E quando penso nisso, penso em todos os heróis da liberdade. Para além de Neto, penso em Martin Luther King, penso em Mandela, recordo Gandhi, e percebo que apenas penso neles porque todos, e cada um deles, lutaram pela mesma liberdade. No fundo eles não são heróis de verdade, são simples homens que recusaram ser animais, quando a maioria se contentava a imitar a vida de um cão acorrentado, que ladra e faz piruetas por um pedaço de pão. Exactamente como Agostinho Neto e os seus companheiros, eles lutaram pela liberdade. Não a liberdade dos sistemas políticos, perdida nos meandros das constituições, mas a liberdade da alma, a liberdade profunda, infinita e ilimitada, a liberdade que faz de nós gente, a única capaz de revelar a excelência de cada um.

A minha geração, aqueles que não viram a guerra colonial, mas sentiram o cheiro da morte nas histórias da guerra, que ouviram as histórias do Agostinho Neto, parece contente com a sua existência, mas na verdade não está. A minha geração parece que vive para ver a hora a passar, enquanto inventa um momento, uma festa, um caldo, ou ficar na esquina da rua a fazer o jogo de cintura, enquanto bebe uma cerveja e finge que está contente, mas na verdade não está. Temos apenas medo, e bebemos para afogar os pensamentos, como o poeta que fumava ópio. Fingimos sorrisos mas vivemos a reclamar calados. Calados ninguém nos ouve. A minha geração vive calada de boca aberta, silenciou o pensamento com medo de falar.

Uma sociedade que não pensa, porque tem medo de falar, não produz ideias. Uma sociedade que não tem ideias, porque não pensa, nunca atingirá a excelência. Uma sociedade que não permite que os seus membros falem, impede que os seus membros pensem; impedindo que os seus membros pensem, impede que eles atinjam a excelência. Uma sociedade assim nunca irá formar um Barack Obama, um Tony Blair, um Bill Clinton, uma Angela Merkel, um Seretse Kama, um Durão Barroso, nem sequer um Cristiano Ronaldo.

É verdade que não são mais tempos de luta, não são mais tempos de forjar heróis, de andar com catanas no Marçal e no Sambizanga, de escrever panfletos às escondidas, de pintar paredes com palavras de ordem, mas também já não são tempos para jogos de cintura. É tempo de esgrimir ideias, é tempo de aprendermos a ser livres, de aprendermos a respeitar a liberdade, a nossa e a dos outros, para permitir que cada um consiga libertar a excelência escondida no seu medo. Numa sociedade onde as pessoas não se sentem livres não existe excelência, com excepção da que vem amarrada atrás dos cargos.

Divaldo Martins
Fonte: SA

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Do plágio à fraude científica

O jornal Expresso publicado no dia 3 de Outubro de 2009, trazia uma extensa reportagem sobre o plágio nos trabalhos universitários. O problema é sério, como se mostrou na reportagem, e tem sido agravado com as imensas possibilidades de recolha de informação na Internet e com a facilidade digital de recorte-e-cola. Há teses que incluem, sem os citar, extractos extensos reproduzidos de outras fontes e há trabalhos que são completamente copiados de documentos existentes na Internet.

Muito terá mudado com as novas tecnologias, e para melhor. Mas será confundir informação bruta com conhecimento pensar que o professor deixou de ter conhecimento para transmitir, passando a ser unicamente os alunos a buscá-lo, construí-lo e organizá-lo. Bibliotecas sempre existiram, tornaram-se de consulta mais fácil pela Internet, que é algo como uma imensa biblioteca do conhecimento humano, mas a questão fundamental não se alterou: o ensino tem de ser uma transmissão organizada de conhecimentos guiada pelo professor. Se há mais recursos, isso significa que se abriram novas possibilidades de enriquecer o ensino. Não que o professor se deva limitar a promover 'a construção do conhecimento pelo aluno' ou, como dirão os mais cínicos, a 'estimular o recorte-e-cola'.

Na reportagem do Expresso, o professor Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra, colocou o dedo na ferida: "Quanto mais regulares forem as reuniões entre orientadores e orientandos, mais fácil é combater a fraude". Ou seja, quanto maior for o acompanhamento dos professores ao trabalho dos alunos, mais difícil será apresentar trabalhos que sejam cópias de textos pescados na Internet.

Infelizmente, contudo, algumas escolas, departamentos e professores não actuam da melhor maneira. Há os que deixam os alunos sozinhos a escolher os tópicos, que não indicam literatura nem dão sugestões de pesquisa. Limitam-se a ler apressadamente o trabalho final. Assim, o plágio é fácil e, mesmo quando não há fraude, é pouco provável que o trabalho seja verdadeiramente enriquecedor para o estudante.

Proliferam confusões sobre o que é um trabalho de pesquisa original. Não é uma reflexão magna sobre o passado e o futuro do universo, nem é uma nova síntese da filosofia ocidental, de Parménides a Popper. É, habitualmente, uma investigação sobre um tema minúsculo e muito especializado, com conclusões modestas e com impacto reduzido. Mas exige muito trabalho original.

by: Nuno Crato

in http://aeiou.expresso.pt/nuno-crato=s24976

sábado, 3 de outubro de 2009

"Como Vencer a Pobreza e a desigualdade"

'PÁTRIA MADRASTA VIL'

Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez... Contraditórios? ? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade. O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições.
Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil.
A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.
Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo. Cada um por todos.
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído? Como gente... Ou como bicho?

Por Clarice Zeitel Vianna Silva
Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos
, estudante que termina faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários.
Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade'
A redação de Clarice intitulada `Pátria Madrasta Vil´ foi incluída num livro, com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da UNESCO.

NS

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"Que África escreve o escritor africano?"

Que África escreve o escritor africano?
de Mia Couto

Intervenção na cerimónia de atribuição do Prémio Internacional dos 12 Melhores Romances de África, Cape Town, Julho de 2002. Publicado no livro "Pensatempos" da Caminho. Uma outra sugestão de Natal.

O tema desta cerimónia é a relação do escritor com a luta por um mundo mais humano e democratizado. A pergunta poderia ser: qual é a responsabilidade do escritor para com a democracia e com os direitos humanos? É toda. Porque o compromisso maior do escritor é com a verdade e com a liberdade. Para combater pela verdade o escritor usa uma inverdade: a literatura. Mas é uma mentira que não mente.
O escritor, porém, em outro compromissos. Uma das obrigações do escritor africano é estar disponível para, em certas circunstâncias, deixar de ser escritor e não se pensar "africano".
Explico-me: o escritor é um ser que deve estar aberto a viajar por outras experiências, outras culturas, outras vidas. Deve estar disponível para se negar a si mesmo. Porque só assim ele viaja entre identidades. E é isso que um escritor é - um viajante de identidades, um contrabandista de almas. Não há escritor que não partilhe essa condição: uma criança de fronteira, alguém que vive junto à janela, essa janela que se abre para os territórios da interioridade.
O nosso papel é o de criarmos os pressupostos de um pensamento mais nosso, para que a avaliação do nosso lugar e do nosso tempo deixe de ser feita a partir de categorias criadas pelos outros. E passarmos a interrogar aquilo que nos parece natural e questionável: conceitos como os direitos humanos, a democracia, a africanidade. É esta nossa relação com África que eu gostaria de aqui interrogar. Porque essa "africanidade" erguida como uma identidade tem sido objecto de sucessivas mistificações.

Alguns se apressam a encontrar uma essência para aquilo a que chamam de "africanidade". Na aparência, eles estão ocupados em encontrar uma raíz para o orgulho de serem africanos. Mas, afinal, eles se assemelham à ideologia colonial. África não pode ser reduzida a uma entidade simples, fácil de entender e de caber nos compêndios de africanistas. O nosso continente é o resultado de diversidades e de mestiçagens.
Quando falamos de mestiçagens falamos com algum receio como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos "pura". Mas não existe pureza quando se fala da espécie humana. E se nos mestiçamos significa que alguém mais, do outro lado, recebeu algo que era nosso.
Defensores da pureza africana multiplicam esforços para encontrar essa essência. Alguns vão garimpando no passado. Outros tentam localizar o autenticamente africano na tradição rural. Como se a modernidade que os africanos estão inventando nas zonas urbanas não fosse ela própria igualmente africana. Essa visão restrita e restritiva do que é genuíno é, possivelmente, uma das principais causas para explicar a desconfiança com que é olhada a literatura produzida em África. A literatura está do lado da modernidade. E nós perdemos "identidade" se atravessamos a fronteira do tradicional: é isso que dizem os preconceitos dos caçadores da virgindade étnica e racial.

A oposição entre tradicional - visto como o lado puro e não contaminado da cultura africana - e o moderno é uma falsa contradição. Porque o imaginário rural é também produto de trocas entre mundos culturais diferentes. A maior parte dos jovens da cultura rural do meu país sonham ser Michael Jackson ou Eddy Murphy. Sonham, numa palavra, ser negros americanos.
"Eis-me aqui", escreveu Senghor, "tentando esquecer a Europa no coração do Senegal". O poeta e estadista senegalês nunca conseguiu esse esquecimento. Ele próprio foi uma ponte entre os dois continentes. Nem de outro modo poderia ser. Esquecer a Europa não pode ser eliminar os conflitos interiores que moldaram as nossas próprias identidades. A Europa estava dentro do poeta africano e não podia ser esquecida por imposição.

Entre o convite ao esquecimento da Europa e o sonho de ser americano a saída só pode ser vista como um passo para a frente. Os intelectuais africanos não têm que se envergonhar da sua apetência para a mestiçagem. Eles não necessitam de corresponder à imagem que os mitos europeus fizeram deles. Não carecem de artifícios nem de fectiches para serem africanos. Eles são africanos assim mesmo como são, urbanos de alma mista e mesclada, porque África tem pleno direito à modernidade, tem direito a assumir as mestiçagens que ela própria iniciou e que a tornam mais diversa e, por isso, mais rica.
É preciso sair dessa armadilha, e isso só pode ser feito por esses africanos que encaram sem medo a sua pertença ao mundo mestiço. Alguns dos chamados africanistas, por mais que esbravejem contra conceitos chamados europeus, continuam prisioneiros desses mesmos conceitos. Nem que seja para lhes dar importância, ainda que essa importância seja concedida pela negativa. Não se trata de encontrar identidade em recuos para um pureza ancestral. Os mais ferozes defensores do nacionalismo cultural africano estão desenhando casas do avesso mas ainda no quadro da arquitectura do Outro, daquilo que chamamos o Ocidente. De pouco vale uma atitude fetichista virada para os costumes, o folclore e as tradições. A dominação colonial inventou grande parte do passado e da tradição africana. Alguns intelectuais africanos, ironicamente, para negarem a Europa acabaram abraçando conceitos coloniais europeus.

De facto, a obsessão de classificar o que é e não é "africano" nasce na Europa. Por essa preocupação caminharam a etnografia e a antropologia, disciplinas que, até recentemente, procuravam identificar essências em lugar de processos. Os descobridores de identidades pareciam-se com os navegadores do século XVI: ansiosos, uns, por baptizar territórios que, afinal, já há muito estavam baptizados; outros, apressados em nomear categorias populacionais cujos contornos nem mesmo eles conheciam: as tribos, as etnias, os clãs.
Pense-se, por exemplo, na produção cultural dos africanos. Em lugar de valorizar a diversidade dessa produção e olhar o livro como produto cultural substitui-se a apreciação literária por uma visão mais ou menos etnográfica. A pergunta é - quanto este autor é "autenticamente africano"? Ninguém sabe exactamente o que é ser "autenticamente africano". Mas o livro e o autor necessitam ainda de passar por essa prova de identidade. Ou de uma certa ideia de identidade.

Exige-se a um escritor africano aquilo que não se exige a um escritor europeu ou americano. Exigem-se provas de autenticidade. Pergunta-se até que ponto ele é etnicamente genuíno. Ninguém questiona quanto José Saramago representa a cultura de raiz lusitana. É irrelevante saber se James Joyce corresponde ao padrão cultural desta ou daquela etnia europeia. Por que razão os autores africanos devem exibir tais passaportes culturais? Isso acontece porque se continua a pensar a produção destes africanos como algo do domínio antropológico ou etnográfico. O que eles estão produzindo não é literatura mas uma trangressão ao que é tido como tradicionalmente africano.
O escritor não é apenas aquele que escreve. É aquele que produz pensamento, aquele que é capaz de engravidar os outros de sentimento e de encantamento.
Mais do que isso, o escritor desafia os fundamentos do próprio pensamento. Ele vai mais longe do que desafiar os limites do politicamente correcto. Ele subverte os próprios critérios que definem o que é correcto, ele questiona os limites da razão.

Mia Couto
Julho 2002

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"You'll Never Walk Alone"

Uma canção que já tem uns bons anos, segundo as pesquizas que fiz a primeira gravação foi feita no início dos anos 60 com o grupo de Mersey sound de Liverpool, Gerry & the Pacemakers. Alcançou o número 1 no top britânico de singles em 1963e ficou nessa posição por quatro semanas conscecutivas. Rapidamente a música se tornou um hino para o Liverpool Football Club e é invariávelmente cantada por seus fãs antes do início e ao final de cada jogo, um facto que deixa os jogadores da equipa adversária a tremer. As palavras You'll Never Walk Alone estão no escudo do clube e nos portões de entrada (Shankly Gates) do estádio Anfield.

NS